Falar de "o dispensacionalismo" como se fosse um bloco único é uma das fontes de confusão no debate. No episódio 32 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes traçou um mapa com três fases, o dispensacionalismo clássico, o revisado e o progressivo, para mostrar que o sistema mudou ao longo do tempo sem deixar de ser dispensacionalista.
De onde vem o dispensacionalismo?
As crenças do dispensacionalismo, lembra o pastor citando um e-mail de Randall Price, podem ser rastreadas ao longo da história da igreja, nos pais da igreja. O que surge depois é uma sistematização, nas décadas de 20 e 30, com a Bíblia de Scofield, Gaebelein e Lewis Sperry Chafer, fundador do Dallas Theological Seminary.
O que caracterizava o dispensacionalismo clássico?
Esse período é o que o Pr. Jonas chama de dispensacionalismo clássico, com uma visão mais rígida de alguns elementos. Geralmente distinguia reino de Deus de reino dos céus, separava com rigor o Antigo do Novo Testamento, via a igreja como um parêntese no plano divino e lia o Sermão da Montanha como texto para Israel.
Havia ainda dois povos, o terreno, Israel, e o celestial, a igreja, com destinos e propósitos eternos que geralmente não se relacionam. Esse período começou a receber críticas, e uma delas, já na década de 50, veio de George Eldon Ladd, que questionou alguns desses elementos. O caso da distinção entre os reinos é contado em Reino dos céus e reino de Deus são a mesma coisa?.
O que é o dispensacionalismo revisado?
Nas décadas de 50 e 60, ao responder a pós-milenistas, pós-tribulacionistas e amilenistas, os dispensacionalistas passaram a reexaminar o sistema. Nada radical, diz o pastor, mas revisões foram feitas, como a percepção de que talvez não houvesse uma distinção tão brusca entre reino dos céus e reino de Deus.
Alva McClain, Erich Sauer e Herman Hoyt aparecem nesse movimento. Hoyt mostra, em The End Times, que a terra não será destruída, e sim recriada. Alguns revisados passaram a afirmar que todos estarão juntos na terra, enquanto outros dizem que todos estarão no reino eterno. Os destinos eternos deixaram de ser tão separados.
Craig Blaising chamou esse grupo de dispensacionalistas revisados. Charles Ryrie não aceitou o termo e, no livro de 1995, aplicou-o a Blaising e a Bock, dizendo que os revisados eram eles e que ele era normativo. Até hoje alguns dos chamados revisados preferem o termo tradicional.
Quando surgiu o dispensacionalismo progressivo?
Entre as décadas de 80 e 90 começa a surgir o que depois se chamou de dispensacionalismo progressivo, porque lidava com elementos que iam além do que os revisados haviam feito. O Pr. Jonas resume como os próprios proponentes se descrevem: "O dispensacionalismo progressivo, eles mesmos dizem, é um revisado que se revisou um pouquinho mais. Não é uma ruptura com o dispensacionalismo."
A razão, segundo o pastor, é o diálogo mais intenso com a teologia bíblica, que estava em crescimento e em seu auge. Nesse debate o movimento começou a revisar alguns elementos e passou a ser conhecido como dispensacionalismo progressivo, nas décadas de 80 e 90 e nos anos 2000.
Questionar os critérios de Ryrie, insiste o Pr. Jonas, não é deixar de ser dispensacionalista, e o livro Continuidade e Descontinuidade, de 1988, já os criticava. O progressivo não nega a interpretação literal, a diferença entre Israel e igreja nem que a glória de Deus seja um elemento central das Escrituras. Por que essa crítica foi tão mal recebida no Brasil é o assunto de Por que o dispensacionalismo progressivo virou caricatura no Brasil?.
O mapa ainda tem um desdobramento curioso, que o pastor apontou mais adiante na conversa: "Os revisados de hoje já são revisados dos revisados. Eles já são influenciados, sem saber, por uma série de crenças do progressivo." Antes de rotular alguém, vale saber em que ponto desse mapa ele de fato está.





