Quem cresceu em estudos dispensacionalistas talvez tenha aprendido que reino dos céus e reino de Deus são realidades diferentes. No episódio 32 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes contou como essa distinção surgiu no dispensacionalismo clássico e como ela caiu, com críticas de fora e também de dentro do próprio dispensacionalismo, e o que os próprios Evangelhos mostram sobre ela.
O que o dispensacionalismo clássico ensinava sobre o reino dos céus?
Havia uma tendência no dispensacionalismo clássico de separar os dois reinos, explica o pastor. O reino dos céus, expressão usada só por Mateus no Novo Testamento, seria o reino milenial, literal e terreno de Cristo, oferecido a Israel e adiado depois da rejeição. O reino de Deus seria universal, abrangente e espiritual.
Segundo essa leitura, a partir de Mateus 13 passaria a existir uma forma misteriosa do reino, e a igreja seria um parêntese no plano de Deus.
Quem criticou a distinção entre reino dos céus e reino de Deus?
A crítica mais conhecida veio de George Eldon Ladd, em The Crucial Questions About the Kingdom of God, na década de 50. O Pr. Jonas lembra, porém, que antes de Ladd, no fim da década de 40, o alemão Erich Sauer, também dispensacionalista, já havia publicado um livro que criticava a distinção entre reino de Deus e reino dos céus, a ideia de um reino adiado e a ideia da igreja como parêntese. Em inglês, o título é From Eternity to Eternity.
O pastor observa que Sauer é muito negligenciado e pouco conhecido, embora F. F. Bruce tenha escrito um prefácio elogiando-o como grande erudito. Dentro da tradição dispensacional alemã já havia, portanto, quem questionasse essas separações antes de Ladd.
Como os próprios dispensacionalistas abandonaram a distinção?
Em 1959, quando Alva McClain lançou The Greatness of the Kingdom, Ladd escreveu uma resenha dizendo que o livro não citava nenhum autor recente, e Walvoord escreveu outra, chamando-o de extraordinário. O Pr. Jonas acha o livro maravilhoso, mas diz que ele precisava de atualização, pois reunia artigos publicados ao longo de uns dez anos.
O debate se estendeu, e os dispensacionalistas começaram a abrir mão. Walvoord passou a aceitar que não dava para manter uma visão rígida de reino de Deus e reino dos céus, e Dwight Pentecost também acabou com essa distinção. McClain, aliás, já dizia que não havia distinção, embora houvesse momentos em que ela reaparecia. Essa revisão interna é um dos capítulos da história que o pastor resume em Dispensacionalismo clássico, revisado e progressivo: o mapa.
O que diz o texto bíblico?
Para o Pr. Jonas, o argumento bíblico é direto. O que Mateus chama de reino dos céus, Marcos e Lucas chamam de reino de Deus, nas mesmas passagens e nas mesmas parábolas. E o próprio Mateus usa a expressão reino de Deus no capítulo 19 (Mateus 19.24). A Bíblia, diz ele, deixa isso muito claro.
Resta a pergunta de por que Mateus prefere "reino dos céus". Costuma-se explicar que ele evitava o nome de Deus por reverência aos judeus, mas o pastor cita Jonathan Pennington para mostrar que isso é um equívoco, pois Mateus usa o nome de Deus inúmeras vezes. A explicação está em outro lugar: Mateus usa a linguagem de Daniel, a do reino que vem dos céus.
A conclusão do Pr. Jonas Mendes é que as duas expressões falam do mesmo reino, e que Walvoord e Pentecost acabaram abrindo mão da distinção rígida. Para quem estuda os Evangelhos, vale um exercício simples: pôr lado a lado as mesmas parábolas em Mateus, Marcos e Lucas e deixar o texto mostrar o que está dizendo.





