O que Azusa tem a ver com Dallas? A pergunta junta o berço do pentecostalismo moderno e o centro do dispensacionalismo norte-americano, duas tradições que caminharam juntas por décadas e que hoje muitos autores pentecostais tentam separar. No episódio 32 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes tratou da relação entre dispensacionalismo e pentecostalismo e explicou por que, na avaliação dele, o dispensacionalismo progressivo abre uma conversa que as vertentes anteriores fechavam.
Por que pentecostais estão deixando o dispensacionalismo?
O Pr. Jonas descreve uma crise na tradição teológica assembleiana. A Assembleia de Deus é pentecostal e, na escatologia, abraçou uma visão dispensacional. Muitos autores pentecostais hoje, porém, abandonam o dispensacionalismo porque entendem que a sua hermenêutica é incompatível com o pentecostalismo.
Para entender essa crise, o pastor começa corrigindo um equívoco comum: "Dispensacionalismo não é sinônimo de escatologia […] A escatologia é apenas um aspecto que está dentro do dispensacionalismo." O dispensacionalismo é uma abordagem hermenêutica, que trata da relação entre os testamentos e de como a mensagem de Deus é construída ao longo das Escrituras. Com o tempo, acabou reduzido a esse único viés escatológico, e é como hermenêutica que entra em tensão com o pentecostalismo.
O dispensacionalismo tradicional era antipentecostal?
O Pr. Jonas usa o termo "dispensacionalismo tradicional" para o clássico e o revisado. Na avaliação dele, essa tradição tem de fato uma abordagem hermenêutica que dificulta um pouco a relação com o pentecostalismo, embora ajustes sejam possíveis. Os autores daquela tradição não eram pentecostais, e a maioria era antipentecostal.
Esses autores acreditavam que os dons ficaram restritos ao primeiro século e aos apóstolos. Entendiam o batismo com o Espírito Santo como sinônimo de regeneração, e não como uma experiência subsequente, como o pentecostalismo geralmente crê. Ou seja, boa parte da escatologia que chegou às igrejas pentecostais foi formulada por autores que não compartilhavam pontos centrais da experiência pentecostal. Essa tensão histórica é o tema do artigo Entre Azusa e Dallas, escrito pelo próprio Pr. Jonas.
Por que o progressivo dialoga melhor com o pentecostalismo?
O dispensacionalismo progressivo tem uma abertura maior, explica o pastor, porque dialoga com outros campos da hermenêutica com os quais o pentecostalismo também dialoga. Ele lembra que, no Dispensational Study Group, o pastor assembleiano Douglas Oss participou e fez exposições.
O Pr. Jonas perguntou diretamente a Craig Blaising e a Darrell Bock o que pensavam sobre o pentecostalismo. Segundo ele, os dois responderam que não são pentecostais, mas também não são cessacionistas no sentido de antigamente, e que o dispensacionalismo progressivo dialoga muito mais com o pentecostalismo do que as vertentes anteriores.
Há também uma afinidade de linguagem. O pentecostalismo fala muito do já e ainda não, do reino de Deus como aspecto presente e do Espírito Santo como manifestação presente: uma demonstração, agora, daquilo que será desfrutado plenamente no futuro. O dispensacionalismo progressivo adota essa linguagem e concorda com ela.
A resposta de Blaising
O pastor contou que escreveu um texto defendendo uma visão pentecostal e dispensacional e o enviou a Blaising. Segundo o Pr. Jonas, a resposta foi que os dois poderiam debater a exegese de alguns textos, mas que o trabalho era honesto e bem construído, e mais abrangente que o do próprio Blaising, porque dialogava com áreas que ele não aborda.
A observação do Pr. Jonas Mendes vem com cautela: muitos que abandonam o dispensacionalismo por causa do pentecostalismo talvez não conheçam o progressivo, que consegue dialogar muito bem com a tradição pentecostal. Para o leitor assembleiano que sente esse incômodo, o caminho sugerido é conhecer essa vertente pelas fontes antes de decidir, como o pastor defende ao longo de toda a entrevista do episódio 32.





