Se Deus já reina sobre tudo, por que Jesus ensina a orar "venha o teu reino"? A pergunta parece um paradoxo, mas tem resposta na forma como a Bíblia fala do Reino de Deus. No episódio 32 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes explicou que o reino tem uma dimensão universal e outra relacional, e que a história caminha para o momento em que as duas vão coincidir.
O que significa dizer que o reino é multidimensional?
Para o pastor, o reino de Deus é um único reino com inúmeros aspectos. Às vezes a expressão está sendo usada como autoridade real de Deus, outras vezes como governo de Deus ou como soberania de Deus, e o Novo Testamento nem sempre destaca o mesmo aspecto. Ler bem um texto sobre o reino começa por perguntar qual desses aspectos está em foco.
O Pr. Jonas desenvolveu essa ideia por escrito em O Reino Multidimensional, com ênfase nas fases do reino ao longo da história da redenção. Na entrevista, o recorte é outro: as duas maneiras pelas quais o mesmo rei se relaciona com a sua criação.
A dimensão universal: Deus reina até sobre quem não o reconhece
A primeira dimensão é a soberania do rei sobre toda a criação. Os salmistas mostram que tudo está debaixo da autoridade de Deus, reconheçam ou não. Deus usa as nações para os seus propósitos, queiram elas ou não, como fez com a Babilônia e com o império greco-macedônico.
O pastor lembra que é Deus quem faz Nabucodonosor pastar com os animais e quem faz Belsazar cair. Não interessa se alguém o reconhece ou não: ele é o rei soberano. Essa soberania abrange toda a criação, inclusive os que não o reconhecem e não o adoram.
A dimensão relacional: o povo que reconhece o rei
A outra dimensão é mais intimista. Dentro da criação, um grupo desfruta um relacionamento especial com o rei, reconhece a sua soberania, quer obedecer e faz a sua vontade. Foi assim quando Deus chamou Israel para ser uma nação sacerdotal e um povo real, em aliança com ele.
O Pr. Jonas insiste que é o mesmo reino e o mesmo rei. A diferença está no modo como o rei lida com a criação, porque alguns reconhecem a sua autoridade e outros não. Quem não reconhece continua debaixo dela do mesmo jeito; quem reconhece desfruta de um relacionamento diferente com ele. É por isso que a Bíblia pode celebrar Deus como rei de toda a terra e, ao mesmo tempo, falar de um povo que é dele de maneira especial.
Quando as duas dimensões vão coincidir?
Os salmistas e os profetas, segundo o pastor, começam a vislumbrar um tempo em que o próprio rei vai descer e em que as duas dimensões vão coincidir. Em todo o território do rei haverá reconhecimento, adoração e obediência, sem lugar para rebelião, e o reino exercerá a sua autoridade incontestavelmente sobre todos.
É isso que Jesus ensina a pedir em Mateus 6.10: que a vontade de Deus seja feita assim na terra como no céu. No céu ela é feita plenamente, mas na terra ainda há contestações. Jesus, como microcosmos do reino, é aquele que já obedece à vontade do Pai irrestritamente aqui.
O pastor descreve esse caminho em estágios. O milênio é um estágio em que isso se cumpre com muito mais intensidade, mas ainda em condições mortais e com possibilidade de rebelião, como Zacarias 14 mostra. A nova criação, em Apocalipse 21 e 22, mostra o reino se estendendo plenamente sobre toda a criação, tema do artigo A nova criação é o Éden glorificado.
Um só rei e um só reino, conclui o Pr. Jonas Mendes, caminham para o momento em que reconhecimento, adoração e obediência alcançarão todo o território do rei. Enquanto esse dia não chega, orar "venha o teu reino" é pedir que a obediência que já existe no céu, e que Jesus viveu na terra, alcance também a nossa vida.





