A Igreja substitui Israel? A pergunta apareceu em vários comentários do corte com o Dr. Craig Blaising, quase sempre em tom categórico: a Igreja tomou o lugar de Israel, ou a Igreja é o Israel do Antigo Testamento. Por isso o EP. 34 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, mudou de pauta. O Pr. Jonas J. Mendes começou pelo ponto que costuma ficar para trás nesse debate: antes de responder, é preciso definir o que é Israel e o que é a Igreja.
O que é Israel na Bíblia?
Segundo o Pr. Jonas, Israel é uma nação chamada por Deus com uma vocação. Em Êxodo 4 é o filho primogênito; em Êxodo 19.5-6, um reino sacerdotal; e desde Gênesis 12.1-3 é o canal pelo qual a bênção chegaria às famílias da terra, depois da dispersão das nações em Gênesis 10 e 11. Ele retoma a definição de Craig Blaising: Israel é um povo étnico, nacional e territorial. Há herança genealógica e há uma terra prometida a Abraão.
O que é a Igreja?
A Igreja, explica o Pr. Jonas, não é uma nação nesse sentido. Ele repete a definição duas vezes, de propósito: a Igreja é "a comunhão de judeus e gentios efetuada pelo Espírito Santo em Cristo Jesus e uns com os outros". Por isso é uma realidade do Novo Testamento: ninguém no Antigo Testamento foi habitado pelo Espírito e unido a Cristo numa só comunhão. Nela, judeus e gentios têm o mesmo status de salvação, e a Igreja é multinacional e multiétnica.
E 1 Pedro 2, que aplica Êxodo 19 à Igreja? Para o Pr. Jonas, Pedro mostra que a Igreja passa a participar daquela vocação sacerdotal e real, de ser luz para os povos. A questão, diz ele, é vocacional, não de substituição.
Substituição e supersessionismo são a mesma coisa?
Aqui o Pr. Jonas desenha o mapa do debate. Muitos aliancistas rejeitam o termo substituição e preferem dizer que a Igreja é o verdadeiro Israel, apoiados em Gálatas 6.16. Blaising e Bock observam que, no fim, dá na mesma: o Israel étnico, nacional e territorial perde o lugar. O aliancismo progressivo de Peter Gentry e Stephen Wellum diz que Cristo cumpre Israel. O aliancismo tradicional vê a Igreja já no Antigo Testamento.
Os dispensacionalismos concordam que não havia Igreja no Antigo Testamento, mas o clássico tratava a Igreja como um parêntese entre a 69ª e a 70ª semana de Daniel 9, com o relógio profético de Israel parado. O progressivo rejeita o parêntese: Deus continua lidando com Israel, a igreja primitiva era formada por israelitas, o endurecimento é parcial e não permanente, e Paulo prega em Atos 13 que o que acontece é o que os profetas anunciaram. O erro do clássico, segundo o Pr. Jonas, foi tratar a Igreja como um povo que compete com Israel. Paulo e Pedro continuaram israelitas. Na Igreja, resume ele, "nenhum deixou de ser gentio e nenhum deixou de ser judeu".
Quem é o "Israel de Deus" em Gálatas 6.16?
O Pr. Jonas lembra que, pela contagem que circula, a palavra Israel aparece de 68 a 73 vezes no Novo Testamento, sempre para o povo étnico, com um único texto em discussão: Gálatas 6.16. A questão está no kai. Se for aditivo, Paulo abençoa os gentios que andam nessa regra e também o Israel de Deus, os judeus crentes que pertencem à Igreja (a leitura que ele prefere). Se for explicativo ("isto é"), Paulo chamaria a Igreja de Israel; mas esse uso é raro nas cartas de Paulo, e por isso, diz ele, não lhe parece a melhor explicação. Ele reconhece que os exegetas ainda debatem o ponto e conclui: "É muito inseguro (...) criar uma teologia em cima de um texto que nós não temos certeza".
E Romanos 11.26, "todo o Israel será salvo"? É o Israel étnico, o mesmo dos "meus irmãos" de Romanos 9.
A resposta final
Quando David Marrone faz a pergunta do título, a resposta vem curta: "Não, de forma alguma. Não tem como substituir, porque são categorias distintas." O Pr. Jonas pergunta se a Igreja substitui o Brasil, ou se alguém precisa deixar de ser brasileiro para pertencer à Igreja. Israel é uma nação chamada para servir a Deus entre as nações; a Igreja é a comunidade inaugural do Reino, que hoje experimenta em parte o que todos experimentarão plenamente no novo céu e na nova terra. A conversa completa, com os capítulos, está na página do episódio. Muito do que parece briga de doutrina, nesse tema, começa numa palavra mal definida.





