Quem pastoreia o pastor? A pergunta parece simples, mas toca numa ferida antiga da igreja: a ideia de que quem cuida das ovelhas não adoece. No EP. 35 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Valmir Nascimento dedicou um bloco da conversa à crise mental no ministério, uma das cinco crises do seu livro Homens de Deus (CPAD). O ponto de partida é direto: o obreiro, "embora homem de Deus, é homem", sujeito às mesmas fraquezas e limitações, físicas e mentais.
Pastor pode ter depressão?
Pode. O Pr. Valmir lembra que o tema já deixou de ser tabu e que hoje se fala com mais transparência que "pastores, sim, podem passar por depressão". Também enfrentam ansiedade e esgotamento, o burnout, que ele descreve como queimar de dentro para fora. Ele menciona pesquisas recentes, inclusive nos Estados Unidos, que mostram um grande número de pastores esgotados emocional e psicologicamente.
E responde à objeção mais comum, a de que isso seria sempre um problema espiritual. Pode ser, admite, mas não é essencialmente. Para ele, essa fragilidade decorre do estado caído do ser humano: assim como há doenças físicas, há doenças psíquicas. O exemplo bíblico que ele cita é Elias, que depois do confronto com o rei e da perseguição de Jezabel chegou a um esgotamento espiritual e emocional (1 Reis 19). Não havia diagnóstico psiquiátrico na época, observa, mas o quadro está ali.
O que aconteceu com Spurgeon?
O caso mais forte vem da história da igreja. O Pr. Valmir, que esteve em uma das igrejas pastoreadas por Charles Spurgeon em Londres, lembra que o "príncipe dos pregadores" também passou por um tempo de fragilidade. Certo dia, num culto da igreja que ele pastoreava, alguém começou a gritar "fogo", e a correria deixou mortos e feridos. Segundo o Pr. Valmir, Spurgeon nunca superou aquilo: a lembrança voltava, e ele seguiu sendo um grande pregador enquanto lutava com os fantasmas de dentro. A esposa dele fala sobre essa luta.
Como ele continuou? Pela "dependência da graça". O Pr. Valmir tira daí a lição do capítulo: quem tem uma doença física depende da graça, e quem tem uma doença psicológica também. Por isso ele insiste que "pastores não estão blindados" e que o cuidado com a mente faz parte do ministério, inclusive tomando cuidado com o ativismo que leva ao esgotamento.
Positividade tóxica e a falta de amigos
Ele aponta dois fatores entre outros, sem pretender esgotar as causas. O primeiro é o que associa ao filósofo Byung-Chul Han: uma sociedade da positividade, em que cada um se compara com o ministério do outro, que parece sempre crescer e nunca passar dificuldade. As redes sociais viraram o ambiente dessa comparação, e a pergunta "se ele dá certo, por que eu não dou certo?" alimenta a insatisfação.
O segundo é a falta de amigos, somada à concorrência. Ter colegas de ministério não é o mesmo que ter amigos. A pergunta do Pr. Valmir é quantos amigos o pastor tem a quem possa abrir o coração e pedir oração. "Pastores precisam de amigos", diz, gente que ande com eles nos momentos mais difíceis.
"Quem pastoreia o pastor?"
A pergunta que dá título a este texto não é dele. O Pr. Valmir conta que, por volta de 2010, ainda jovem obreiro, esteve numa pequena sala em Cuiabá com o Pr. Antônio Gilberto, um dos grandes ensinadores da Assembleia de Deus. Em meio à conversa, o Pr. Antônio Gilberto disse que todos têm um pastor, e perguntou: "quem pastoreia o pastor?". A frase ficou martelando nele. A resposta que o Pr. Valmir dá é dupla: somos cuidados por Deus, é claro, mas também precisamos de amigos, obreiros que nos ouvem e conhecem as nossas necessidades.
Ele encerra o bloco lembrando que é uma crise que pode ser superada, e que no livro cada capítulo termina com orientações práticas (a crise mental é uma das cinco que ele percorre; veja as 5 crises do ministério cristão e a página do episódio). Para a igreja, a aplicação talvez seja simples: perguntar ao próprio pastor como ele está, e esperar a resposta verdadeira.





